terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A ESCOLHA PELO PARTO DOMICILIAR
Lucas, nosso primeiro filho, nasceu numa cesárea intraparto, desnecessária. Ainda dói saber que fui enganada.

Bernardo, o segundo, já veio em uma época com mais informação, mais vontade, mais interesse. Mas ainda não foi o suficiente. Nasceu num parto normal hospitalar cheio de violência obstétrica, desencorajamento por parte das enfermeiras, impedimento do pai estar comigo no pré parto, anestesia sem necessidade e episiotomia sem minha autorização.

Depois do nascimento do Bernardo, comecei a me inteirar mais sobre parto humanizado, sobre escolhas respeitadas e sobre o recebimento de um bebê no mundo, e suas implicações. A paixão foi imediata, e um ano e meio depois eu me formava com Doula.

Atuando na área, auxiliando mulheres em suas buscas, me encantei pela ideia de receber um bebê em casa, no conforto e segurança do meu lar, sem correr o risco de intervirem sem meu consentimento. Nascia uma vontade imensa de viver tudo o que não vivi nos dois partos anteriores.

Nossos planos eram de engravidarmos em 2018.

A GRAVIDEZ E A EQUIPE
Abril de 2016 descobri a gravidez após um atraso menstrual. Chorei muito, estávamos em um período complicado, voltando para o Brasil, Thiago ainda sem proposta concreta de emprego para o segundo semestre. Ignorei o primeiro período da gravidez. Não contei para praticamente ninguém, e esqueci. Foquei na mudança, e assim levamos até final de maio, quando contamos para a família. Nesse mesmo período conversei com a Eloiza, doula que eu gostaria que estivesse comigo, e comecei a fazer planos. Iria parir na casa dos meus pais, onde estava até então, com uma equipe que se deslocaria de uma cidade vizinha. Mas eu não conseguia idealizar, porque até então não tínhamos certeza sobre nosso futuro, Thiago recebia algumas propostas, vários países diferentes, e a cada proposta era uma chuva de pesquisa sobre o cenário de nascimento do país.

Em agosto o Thiago foi para a Indonésia. O cenário não era bom. Apesar do alto índice de partos normais, o índice de intervenções como indução e episiotomia eram gritantes.  Me faltava coragem para encarar qualquer uma das opções: parir em um lugar completamente diferente, sem auxílio de ninguém além do meu marido no fim da gestação e pós parto, ou parir no Brasil, com meu marido longe.

Foi um mês difícil. E mais um que se passou sem que eu me conectasse à gravidez. Em uma das longas madrugadas de pesquisa encontrei uma equipe de “gentlebirth” que prega o que eu queria para o meu parto, em uma cidade a 50min de avião de onde o Thiago estava. Me senti segura, decidi ir.

O final da gravidez foi regado de mais preocupações: os vôos da cidade da equipe para a nossa eram escassos, correríamos um grande risco de não chegarem a tempo. Partimos para outro plano, e resolvemos contratar uma equipe de parteiras tradicionais, que aceitaram nossas condições de parto domiciliar sem intervenções. Não me sentia 100% segura por vários motivos, mas o principal: não falamos a língua delas e elas não falavam sequer inglês. Eu e o Thiago conversamos sobre isso, e planejamos ficar só nós dois em casa até o TP ativo e só então chamar a equipe. Para tanto, compramos um doppler, afim de manter a segurança do bebê. Mal sabíamos que o “brinquedinho” seria uma das coisas mais importantes para o nosso parto.

Às 37 semanas houve uma suspeita de RCIU (restrição de crescimento intrauterina), o Vicente parecia não estar mais crescendo como deveria. O peso estimado à essa altura era de 2700kg. Deveríamos retornar no médico (que fazia o acompanhamento secundário) dia 08/12, então com 39 semanas para confirmar ou não a suspeita. Mais preocupação, menos conexão.

O PARTO
Vinha tendo pródomos fortes desde 37, 38 semanas. 2 alarmes falsos com contrações frequentes e constantes, ansiedade.

No domingo, dia 04/12 soubemos que o Thiago iria ter que viajar no final de semana, iria dia 10/12 e voltaria dia 13 (exatamente na DPP). Mais ansiedade, choro, e um pedido ao Vicente: que viesse até dia 9.

Terça-feira, dia 6, 39 semanas exatas, consultamos com a parteira. Mais preocupação: AU baixa (28cm) e BCF acelerados (163bpm). Ela me pediu exames que fizemos na hora e tranquilizou: está tudo bem. Mas mãe... aaah o coração de mãe, né?

Quarta-feira, dia 7, comentei com o Thiago sobre as minhas preocupações, desde a provável RCIU, que ficou mais provável por causa da AU, aos batimentos, que, com o nosso doppler em casa ainda mostravam-se um pouco altos. Thiago sugeriu irmos fazer a ultra nesse dia mesmo, concordei, mas depois desencanei, resolvemos ir para a piscina com as crianças. Na piscina, comentei com ele que estava com uma sensação estranha, parecia estar perdendo líquido, mas como depois passou, esqueci do fato.

Quinta-feira, 08/12. Acordei antes das 7 da manhã para fazer xixi, voltei para a cama e demorei para voltar a dormir. Thiago acordou para ir trabalhar e me perguntou “o que você tem?”. Eu estava estranha, respondi que estava bem. Poucos minutos depois dele sair, senti líquido escorrer, mas como eu vinha tendo escapes de urina, não dei bola. Alguns segundos e mais um pouco. Resolvi levantar e constatei: era líquido mesmo. Voltei a deitar, nervosa, pensando no que fazer. Os meninos ainda dormiam, então levantei, fui ao banheiro, troquei de calcinha, coloquei o celular no carregador e sentei na bola, em frente à tomada. Fiquei vários minutos olhando pra tela do celular, pensando no que fazer. Não fiz nada. Levantei novamente, e a bolsa estourou por completo, muita água, e o susto: havia mecônio.



Eu não sei por quanto tempo fiquei em pé olhando para o chão branco, agora cheio de grumos verdes. Me pareceram horas. Eu chorei, e muito. A primeira coisa que me passou pela cabeça foi: meu pequeno não está bem. Mecônio assusta. Chamei a Natália e a Amanda, minhas doulas virtuais, e ambas, junto com os batimentos (138bpm) me acalmaram. Decidi esperar o Thiago chegar para decidirmos o que fazer.
O abraço que eu precisava chegou e me acalmou pela primeira de muitas que ainda viriam. O Thiago ligou para o Roni, nosso amigo brasileiro/indonês que nos ajuda como tradutor e pediu que ele informasse a equipe. A parteira pediu para que fossemos até o consultório dela para que ela avaliasse.

Antes de sair de casa, senti uma ou duas contrações muito fracas, mas que já me animaram!

Avaliação da parteira: bolsa rota, pouco mecônio (nessa altura, 11h da manhã o líquido já estava praticamente limpo) e os mesmos 2cm de dilatação de sempre. BCFs normais. Sugeriu esperarmos até meio dia, achou que logo começaria o trabalho de parto.

O Roni levou os meninos para a casa de um casal de amigos, e nós ficamos lá, esperando. Nada aconteceu até meio dia. Começaram a sugerir indução e pra mim, foi um balde de água fria! Eu havia falado que não queria intervenções, e na primeira oportunidade me oferecem soro? Só respondi que não, mas devo ter mostrado a cara de descontentamento. Sugeriram então ir para o hospital, fazer uma avaliação. Neguei também. Em algum momento, pelas 13h, vieram novamente conversar conosco e falaram que não daria para ficarmos ali, precisávamos de avaliação numa clínica ou hospital. Eu não entendia o porquê, perguntei várias vezes se o bebê estava bem, e afirmavam que sim, estava ótimo. Falei então que não iria para lugar nenhum, queria ir para casa. Chorei, desabei. Por quê comigo? Thiago estava lá, para garantir: você só vai fazer o que você quiser, ele repetiu várias vezes, e avisou que não iríamos. Elas explicaram que têm regras a seguir, e que poderíamos esperar no máximo até 18h, ali no consultório para que fossemos monitorados, e, não tendo nenhuma evolução, iríamos para uma clínica ou hospital. Thiago perguntou o que eu achava e, na inocência de achar que até lá com certeza já teríamos progresso, aceitei.  O Thiago foi para casa, pegar nossas coisas para garantir que teria o trabalho de parto que idealizei, com minhas músicas, minha bola, meu “doulo” rs,  conversar com as crianças que ficariam na casa dos vizinhos e buscar algo para eu comer. Nesse meio tempo, fiquei sentada na maca conversando com as parteiras. Contrações vinham muito de vez em quando, fracas e com pouca duração. Conversamos bastante sobre a realidade obstétrica no Brasil (elas ficaram super assustadas com os dados!), e sobre diversos assuntos. Falei que queria me movimentar, sugeriram que não, porque poderia perder muito líquido. Um sinal de alerta acendeu, isso não era certo. Eu sabia que o corpo continuava a produzir líquido, sabia que a cabecinha do Vicente estava servindo como ”rolha” e já tinha percebido que a quantidade de líquido que eu estava perdendo era pouca. Resolvi esperar o Thiago chegar, me sentia mais a vontade de enfrentar qualquer coisa com ele ao meu lado.

Em um determinado momento elas foram todas para dentro e me deixaram sozinha, resolvi descansar. Deitei, e não se passaram nem 10 minutos para sentir uma contração forte, boa, das que estávamos buscando. 15 minutos depois, mais uma, e outra... Alívio! Tínhamos algo, menos mal! Alguns minutos depois as midwifes voltaram, perguntando como eu estava e contei, feliz da vida, das contrações. Auscultaram novamente os batimentos, tudo ok. Pediram para avaliar o colo, e eu deixei, apesar do plano inicial ser de não aceitar toques,, uma evolução era algo que precisávamos e era uma informação importante no momento. Ficaram então esperando a próxima contração para medir o colo, mas ela não veio. Parou tudo novamente, e eu consegui constatar: eu não estava conseguindo progredir por pressão da parte das midwifes. Eu precisava me conectar, precisava de paz. Nesse momento o Thiago voltou. Era perto de 16h, com comida, a bola, as malas, tudo. Fizeram o toque: orifício interno sem nada de dilatação, zero. Frustração. Mas ok, tínhamos ainda 2 horas. Na hora da ausculta, segundos de terror: a midwife não conseguia achar os batimentos. Pareceu uma eternidade, até ela constatar que o bebê havia mudado de posição! Esteve as últimas semanas com o dorso à direita, e ali, mudou para a esquerda. Ótimo! Ele sabia o caminho! Comecei a me exercitar na bola, apesar dos olhares (elas nunca haviam visto gestante se exercitando numa bola de pilates), comi enquanto conversava com as midwifes, junto com o Thiago. Elas sugeriram irmos logo para a clínica, examinar, estavam realmente preocupadas. Eu aceitei, com a condição de que se estivesse tudo bem, eu poderia voltar para casa e aguardar pelo menos 24h de bolsa rota. Aceitaram.

Eu me sentia bem. Eu tinha certeza que estava bem, e fui o caminho todo mentalizando que estava sim tudo bem e eu sabia o que estava fazendo.

Chegamos na clínica, um lugar simpático, acolhedor, muito diferente de um hospital. Midwifes de lá muito queridas. Fizemos cardiotoco, uma única contração fraca durante o exame. Toque novamente – comecei a achar irresponsável tanto toque com bolsa rota, falei que seria o último – 1cm no orifício interno. Ok, melhor do que nada. Chamaram a médica, que pediu um ultrassom com doppler. O ultrassom estava ok, líquido ok, placenta ok, bebê ok. Comentou que ele estava com circulares de cordão, Thiago olhou pra mim com uma cara de: “não acredito que ela vai dar essa desculpa” e eu devo ter olhado pra ele da mesma maneira. Não falou nada. Nada. Foi apenas uma ressalva. Ela  falou que achava prudente eu ficar por lá, eu falei que preferiria ir para casa. Ela comentou sobre ter que ficar monitorando o bebê, falei que tinha aparelho para ausculta, ela abriu um sorrisão e me liberou, me fazendo prometer que iria averiguar os batimentos dele o tempo todo, e que voltaria com 24h de bolsa rota caso não evoluísse. Combinado! Voltei a acreditar, voltei a sorrir, ainda tínhamos esperanças!

Voltamos para casa, finalmente. Era tudo o que eu queria, tudo o que eu precisava. Foi nessa hora que realizei: não teria mais um parto domiciliar. Eu não me sentia segura, eu não sabia com que condições o Vicente nasceria e quais cuidados poderia vir a precisar. Comentei com o Thiago, que concordou comigo. Paramos no caminho para comprar um smoothie que eu amo e rosquinhas. O Thiago estava fazendo a compra e eu dentro do carro, ouvindo minha playlist, quando senti a primeira contração. Olhei no relógio: 19h07.

Chegamos em casa. Meia hora tinha se passado da primeira contração, veio mais uma. Outra, e baixou o intervalo para 15 minutos. Duração boa, tudo fluindo. Era só isso que meu corpo precisava: sossego. Thiago fez um macarrão instantâneo pra mim, comi um pouco. 




Resolvi ir descansar perto das 22h. Durante o sono, acordava com algumas contrações, mas conseguia dormir. Levantei novamente pelas 3h da manhã, já com contrações nem tão ritmadas, mas muito mais doloridas. Começou a doer pra valer. Coloquei minhas músicas, deixei a sala escura, e fiquei caminhando, de um lado para o outro na sala. Cada contração um fechar de olhos, gemidos, as vezes uns agachamentos, cantei muito, declarava as canções para ele. As 4h já tinha contrações a cada 5/7 minutos. Doía muito, já não conseguia agachar, era muito desconfortável. Foi quando o Thiago acordou, eu estava vocalizando bastante nas contrações. Passei o celular, onde eu estava contando as contrações, e o doppler pra ele, sentei na bola, de frente pra ele no sofá. Entre as contrações recebia carinho, e durante elas, incentivo. Ficamos nós dois, no escuro, ouvindo as músicas que eu escolhi com tanto carinho pra esse momento, sentindo cada segundo do que aquilo representava. Iríamos conseguir! Estava dando certo!

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Já era quase dia quando resolvemos ir descansar mais um pouco. Eu acordava e gemia muito a cada contração, mas aproveitava muito bem os intervalos para dormir. 8h da manhã, já 13h depois da primeira contração, levantei novamente. Caminhada, bola, apoio do marido, mas as contrações novamente sem ritmo, durando pouco tempo, apesar de muito doloridas. Medo. Medo de não estar dando certo. Resolvi fazer um toque. Um auto toque. Consegui sentir a cabecinha dele, os cabelinhos, e foi a sensação mais louca que já tinha tido. Não consegui saber quanto de dilatação estava, mas já sabia que o orifício interno estava aberto, ótimo sinal. Imaginei estar com 5, 6cm. Logo após isso, as contrações voltaram com tudo, e lindas. Ritmadas e com ótima duração.

Chamei o Thiago para conversar, dizendo que não estava segura com a equipe de midwifes que havíamos contratado. Falei sobre como tinha a sensação de que eu não seria respeitada totalmente no que queria, e que preferiria ir para a clínica, onde me senti segura e acolhida. Comentei que não saberia como nosso Vicente iria nascer e não me perdoaria de não ter a estrutura suficiente para ampará-lo, caso precisasse. E assim mudamos totalmente de plano e de equipe. Ele entrou imediatamente em contato com a clínica e reservou um quarto para nós.

Já haviam se passado as 24h de bolsa rota. Decidimos esperar mais um pouco, era um horário de pico no trânsito.

A partir dessa hora as coisas ficam confusas pra mim. Sei que não saí mais da bola, aliviava demais as contrações que estavam vindo a cada 5 minutos agora. Passei mal, vomitei e foi uma das piores sensações. Senti uma contração fortíssima durante o vômito, horrível. O Thiago sugeriu que eu fosse para o quarto, onde estava escuro e fresco, fui. Eu e a bola, claro. 



O tempo passou muito rápido. Pedi para que ele chamasse os meninos para dar um beijo, estava com saudades! Eles chegaram, não se assustaram com a vocalização (que estava altíssima já nesse período), me deram carinho e foram brincar. 





Thiago fez almoço, mas eu não consegui comer. Comi uma ou duas rosquinhas da noite anterior, foi o suficiente. Perto das 15h comecei a sentir dores diferentes, com puxos, e pela primeira vez tive medo. De parir em casa sem assistência, ou de não chegar a tempo na clínica.  A clínica ficava cerca de 30 minutos de casa, e decidi que era a hora de ir. Juro que pensei que poderia nascer no carro.

O trajeto foi intenso. Playlist rolando, eu no banco de trás, a cada contração me pendurava no encosto do banco da frente e forçava a pelve para frente. Aliviava. Fazíamos àquele trajeto várias vezes, e eu nunca havia notado que tinha tantos buracos! Chegamos 15h45 na clínica e não demoraram a nos atender. Cardiotoco. Foi horrível, ter que ficar deitada, tinha vontade de arrancar o aparelho e sair correndo. Contrações ritmadas, lindas, a cada 3/4min, coraçãozinho ok. Toque, de novo, e aí, o balde de água fria: 3cm. Eu não pude acreditar. Tinha vontade de chorar, mas não pude. Havia muita gente na sala, e eu fiquei com vergonha, de verdade. Vergonha de parecer fraca, de dar a entender que eu estava desistindo. Eu definitivamente não estava. Respirei fundo e falei pro Thiago: está melhor do que antes. Mas ele me conhece, ele me compreendeu, ele sabia o que eu estava sentindo, e não falou nada, deixou para depois. 



Começaram o internamento, perguntas, aquele povo todo falando em outra língua me deixou tonta, eu não queria ouvir mais nada, só queria ir para o quarto. Pediram para eu vestir uma camisola, horrível, e fazer exame de urina e de sangue. Fui no banheiro, chorei um pouco, respirei e coloquei a camisola. Contrações vindo, cada vez mais intensas. Avisaram que eu poderia ir para o quarto esperar a médica que viria fazer um ultrassom e decidir o que faríamos então. Falaram sobre indução e cesárea. Eu não respondi mais, não sabia mais o que pensar.

Trouxeram uma cadeira de rodas, eu neguei. Insistiram, neguei muito. Subi 4 lances de escada, muito, muito rápido. Eu só queria chegar no quarto!!! Assim que ficamos sozinhos, desabei. Falei que eu não iria conseguir, era muita dor, muito cansaço, muito tempo, pra tão pouco resultado. Olhei no relógio: 16h20. Pediram para esperar a médica, que estava com outra paciente, chegar para fazer um ultrassom. Dor, reclamação, frustração.

A médica chegou as 17h. Pediu para averiguar como estava o colo, deixei. A cara dela quando fez o toque não me sai da memória, o sorriso foi tão largo, que, apesar dela ter falado em Bahasa (a língua deles aqui), eu sabia que era algo bom. Depois traduziu: 6cm! SEIS! Dobrou, em uma hora! Eu ia conseguir, eu estava conseguindo! Cancelou o ultrassom, ia dar tudo certo!



Abracei o Thiago, e as palavras mais doces sempre vinham dele. Sentei na bola novamente, e apesar das contrações quase que sem intervalo, muito doloridas, eu estava feliz. Eu aguentaria. A partir desse momento me conectei totalmente ao meu corpo. Me mexia na bola, o Thiago do meu lado, segurando a minha mão e me incentivando. Novie, nossa amiga indonesa (um anjo que temos aqui) do outro lado, acariciando minhas costas, quieta, mas com uma energia que só ela emana. Entre as contrações eu cantava, relaxava, dormia. Durante elas, gritos que, fiquei sabendo depois, a clínica inteira ouvia. Mas me ajudava a passar pela dor. “Vem, Vicente, vem, filho, aqui fora é lindo!” era meu mantra.



Em algum momento passou a doer mais, e mais. Tentei levantar, não dava. Thiago foi para trás de mim, colocou música, me deu apoio. Eu me sentia fraca, enjoada, sensação de desmaio. Sabia que era normal, a queixa é sempre essa na fase de transição. Ele estava chegando e eu sabia.

A midwife veio para auscultar. Deitar na cama foi horrível. Coração ok. Ela pediu para ligarmos quando começasse a sentir os puxos, que iriam me levar para a sala de parto. Eu não queria uma sala de parto. Sabia que teriam muitas luzes, ar condicionado, muita gente, e não era isso que eu esperava para uma primeira impressão do Vicente nesse mundo. Eu bolei um plano. Sério, bolei um plano, de chamar quando estivesse muito perto de nascer, e negar ir para a sala de parto. Ninguém iria me carregar, pensava eu.

A bola já não era confortável. Aliás, posição nenhuma era confortável. Calor, muito. Tirei a camisola, fiquei só de top. Eu andava de um lado para o outro, as contrações estavam muito fortes. Senti vontade de fazer cocô, avisei o Thiago. Falei que iria no banheiro, para ver se era isso mesmo, ele ficou com medo do Vicente nascer no vaso! Sentei, e na hora percebi que não era cocô, não. Me toquei, senti a cabecinha dele, inteira. Voltei pro quarto, mais 4 ou 5 contrações, já com puxos, mas fracos.

(VÍDEO, CLIQUE PARA ASSISTIR)


Me agachei num canto, puxo forte, força. Me ouviram, vieram duas enfermeiras, pediram para eu deitar para avaliar, falei que jamais. Que se quisessem, me avaliassem ali. Ela fez toque, olhou para a outra DESESPERADA, que saiu correndo. Sorri. Estava vindo, estava vindo! Veio alguém trazer uma cadeira de rodas, pediram para eu sentar. Falei que não ia. Mudei de ideia, não tinha forças para discutir com ninguém. Se quisessem que eu fosse para a tal sala, vamos, vamos rápido. Levantei, fui pegar a camisola, voltei, agachei no mesmo lugar, puxo, força. Senti ele descendo, a enfermeira, despreparada, colocou a mão tentando segurar a cabeça dele. Ela estava mais nervosa que todo mundo junto! Thiago afastou ela. Ela voltou, com uma mão segurei a mão dela, não acho que ela voltaria a segurar, mas por garantia... e com a outra toquei a cabecinha dele, que a essa altura já saía. Circulo de fogo, puxo comprido, saiu a cabeça e tão logo o corpinho escorregou. Veio intenso, numa força só. Amparei, com o maior carinho do mundo. Haviam 3 circulares, as quais tirei uma por uma, com calma. Trouxe ele pra mim, e a única coisa que eu conseguia repetir era “nós conseguimos, filho, nós conseguimos”. Não nos separamos desde então.


(VÍDEO, CLIQUE PARA ASSISTIR)

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Em cerca de 5 minutos, chegou a médica com o resto da equipe. Acenderam a luz, me guiaram para deitar. Ficamos Vicente e eu ali, nos apaixonando, enquanto o cordão era clampeado, depois de parar de pulsar. Aguardamos a placenta sair naturalmente, com ele já no meu peito. Nenhum procedimento foi feito, em nenhum de nós. Levei 4 pontos em uma laceração superficial.




Vicente chegou no dia 09/12, às 19h33 (horário no registro, mas o nascimento foi perto de 19h05) com 2600kg e 52,5cm. 36h de bolsa rota, 24h de trabalho de parto, 3 circulares de cordão e mecônio. Nenhuma intervenção, num parto desassistido. Foi lindo, e eu ainda não acredito em como tudo aconteceu tão perfeitamente bem. Me sinto realizada, me sinto completa.

AGRADECIMENTOS
Eu devo agradecer primeiramente à Deus, por ter ouvido minhas orações durante toda a gestação. Ele sabia do meu sonho, e preparou tudo da melhor maneira possível.

A peça mais importante desse parto, meu marido. Thiago, você sabe que sem você eu não conseguiria. Você sabe que cada palavra, cada gesto, cada carinho nessas horas intensas somaram para que tudo corresse bem. Eu teria desistido se não tivesse você como meu pilar. Essa conquista é nossa. Se hoje sou a mulher realizada que sou, foi você que proporcionou isso. Eu nunca vou conseguir te agradecer o suficiente. Nunca.

Às minhas doulas, que, mesmo com a distância foram tão pontuais e essenciais. Natália e Amanda, vocês fizeram parte desse processo. Cada dica, cada palavra, tudo foi de extrema importância para que eu não desistisse e me mantivesse segura, e principalmente, mantivessem o Thiago focado e certo sobre tudo o que estava acontecendo. Ele ter tido contato com vocês o tempo todo foi uma das coisas mais importantes para que o processo acontecesse com calmaria.

E por fim, à toda a equipe que me acompanhou, cada um que fez um esforço para tentar respeitar minhas crenças e desejos.



5 comentários:

  1. Amiga vc é uma mulher linda por dentro e por fora. Vc merecia esse parto,esse final feliz dps de tanta luta. Olhar vc e sua família me deixa extasiada,é muito amor que vocês passam,transborda. O Vicente chegou pra completar o que já era perfeito. Que Deus o abençoe sempre. Um beijo do tamanho do mundo. Parabéns pela força,pela coragem,você me inspira (deu vontade de parir de novo,rs) Madá

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  2. Que história linda!!! Parabéns pela força e coragem!!!

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  3. Uau.... Sem palavras ...
    Que lindo amiga.
    Lendo isso é como se eu tivesse aí presenciado tudo. Lindo mesmo.
    Você é uma guerreira. Te admiro.

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  4. Parabéns.....Lendo foi de faltar fôlego..... Persistência e sonho realizado, pela fé.

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  5. Mulher ... que liiiindo❤ que gratidão ❤ Sinta-Se muito vitoriosa , aí guerreira corajosa vc foi !!! Parabéns ��������

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